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Mulheres na Indústria Cerâmica Ana Emília Buschinelli, Presidente do Conselho de Administração da Villagres

August 13, 2019

 

ANFACER Entrevista Ana Emília Buschinelli, Presidente do Conselho de Administração da Villagres

 


Ela é formada e Psicologia pela PUC-Campinas e depois de trabalhar nas áreas de pesquisa e saúde mental se especializou em gestão de pessoas e administração de empresas, já com a percepção aguçada de que, em um futuro próximo, teria de estar presente para o processo sucessório da Cerâmica Villagres, que faz parte dos investimentos e negócios de uma família empreendedora que está presente no cenário industrial brasileiro desde a década de 1930.


Convidada para participar do Especial Mulheres na Indústria Cerâmica, proposta pela ANFACER, Ana Emília conta, com grande satisfação, um resumo da história da marca: “a Villagres foi fundada em 1994 por meu avô, João Aparecido, com uma gestão estritamente familiar. Em 2009, com o apoio de consultores renomados, criamos o Conselho Administrativo, formado por dois sócios que trabalhavam na empresa (João Carlos e Vanderli) e três herdeiros, primos entre si, um de cada núcleo familiar: Filipe, João Henrique e eu. Nesta ocasião, fui nomeada presidente do Conselho Administrativo por unanimidade dos membros e com aprovação dos demais sócios”, diz a empresária.


O passo seguinte foi conduzir todos a um processo profundo de profissionalização, “durante o qual reestruturamos o organograma. Os sócios atuantes se afastaram das atividades operacionais e passaram a exercer somente o papel de conselheiros, junto com os herdeiros”, explica Ana Emília.


Em 2012, a gestão da empresa passou efetivamente aos membros da terceira geração. Momento em que foi nomeada novamente Presidente do Conselho Administrativo. Cargo que permanece até hoje. “Em 2014, sob nova consultoria, elaboramos o atual modelo de gestão, mantendo parte da profissionalização e retomando parte do modelo familiar: agregamos ao papel de conselheiros administrativos as diretorias diretas de nossa empresa, ficando cada um dos primos responsáveis por uma área. Assumi então a diretoria administrativa financeira e recursos humanos, que também comando atualmente. Em entrevista exclusiva, Ana Emília Buschinelli fala sobre as suas percepções sobre a empresa, seus desafios como mulher em uma indústria com perfil predominantemente masculino e as suas batalhas pessoais para afastar de vez o estigma de “a filha do dono”e ser respeitada pelo mérito e pela capacidade empreendedora.



ANFACER: A Villagres está no cenário empresarial brasileiro desde a década de 1930. Olhar para esse histórico e se inserir décadas depois na direção da companhia é preciso estar atenta a muito detalhes micro e macro da realidade interna e externa (se formos levar em consideração os solavancos econômicos brasileiros). Como você resume as suas percepções sobre a empresa desde que entrou no comando?


Ana Emília Buschinelli: A Villagres sempre teve um perfil conservador. A maior parte do lucro é reinvestida na empresa. Como toda a indústria, sentiu as oscilações econômicas, mas seu perfil foi primordial para passar por esses momentos. Durante as crises, uma das maiores mudanças foi na gestão. A equipe se fortaleceu por meio das relações de trabalho, traçamos prioridades claras e aprimoramos nosso planejamento. Mantivemos nossos valores e adotamos estratégias assertivas comuns a todos os setores, o que nos uniu e ajudou a passarmos por esses solavancos.


No meio do caminho, percebemos que fazia sentido encerrarmos as atividades de uma das unidades e isso aconteceu em 2014. Desligamos 150 colaboradores e saiba: foi uma das decisões mais difíceis que já tomamos. No entanto, estava mais do que provado que a unidade nos trazia prejuízos e protelamos o máximo possível essa atitude. Mas, tivemos de aprender a abrir mão do que não nos traz resultados. Como empresa familiar, esse é um aprendizado árduo e difícil, porém necessário. E em meio a esse cenário, concretizamos o processo de sucessão familiar, que é delicado para todas as empresas. Somos a terceira geração à frente do negócio. Criamos o conselho administrativo e outras estruturas organizacionais que contribuíram com a comunicação, autonomia, liderança e eficiência. Já vivíamos a gestão familiar e experimentamos a profissionalização. Por fim, encontramos um modelo de gestão que associa as características de ambos e atende o nosso estilo de negócio, o que foi essencial para nossa sobrevivência, longevidade e sucesso.

 

ANFACER: Qual o tamanho da empresa, atualmente, em números?

AEB: Estamos instalados em um terreno de 14 alqueires, com 65 mil m² de área construída. Nossa produção é de 600 mil m²/mês, com foco em produtos de valor agregado e inovação. Atualmente temos 400 colaboradores diretos e 100 funcionários indiretos. Abrangemos o mercado nacional e exportamos para 27 países. Também valorizamos muito o trabalho social, que envolve o apoio à entidades como APEAC, direcionada a pessoas com necessidades especiais; Instituto Muito + Vida, voltado à assistência de crianças; Lar dos Velhinhos, com ênfase nos cuidados com idosos; Projeto Bem Viver, da APAE (Cordeirópolis); Orquestra Educacional de Piracicaba; Pedal de Ouro de Cordeirópolis e investimos continuamente em Programas de Treinamento e Desenvolvimento internos, com ênfase à educação formal dos nossos colaboradores, por meio do programa de Incentivo à Educação.

 

 

ANFACER: Trabalhar em uma indústria predominantemente masculina. Quais os seus principais questionamentos e desafios durante a sua carreira e como conseguiu conduzir as suas opiniões? Isso acontece na prática ou é lenda? 

AEB: Meu primeiro desafio foi construir uma identidade própria. Em uma empresa familiar, somos vistos primeiramente como herdeiros. É preciso tempo para que as pessoas percebam sua capacidade e mérito, desvinculando sua atuação da imagem de “filho do dono”. Meu avô construiu valores sólidos, que carregamos conosco até hoje, e tratou a empresa como uma extensão de sua casa, como uma família. Claro que o fato de ser mulher influencia em alguma medida meu trabalho, mas sempre contei com o respeito e reconhecimento de todos. Logo, este não foi o mais relevante dos fatores. Mas é bom que se diga que nossa empresa tem um ambiente de trabalho atípico. Considerando outros segmentos, independente do ramo, comumente encontramos contextos em que as opiniões de uma mulher são menos relevantes, onde a real liderança se concentra em pessoas do sexo masculino e dentro dos quais temos que lutar mais arduamente para ganhar nosso espaço. A predominância masculina é real. A subestimação da mulher pelo seu gênero acontece e é uma perda relevante. No entanto, precisamos avaliar mais profundamente o desejo por trás da ideia de igualdade entre homens e mulheres: sentimos o mundo de forma diferente, temos diferentes aptidões e cada um se sai melhor em um aspecto ou outro. Em situações de conflito, por exemplo, a mulher tem uma aptidão nata para conciliação, por exemplo. Em momentos críticos, os homens tendem a ser mais práticos e racionais. Nossos cérebros e emoções funcionam de forma diferente: precisamos aprender a tirar o melhor proveito disso sem desvalorizar as pessoas pelo seu gênero e quando conseguimos trabalhar em conjunto, associando nossas competências todos ganhamos.



ANFACER: Na prática, o que você mudou nas rotinas da empresa, ou seja, o que considerava que precisava de um toque feminino e que realmente fizeram a diferença? 

AEB: A primeira coisa que percebi quando cheguei na Villagres foi a comunicação ineficiente. Na maioria das vezes, as pessoas pensam que tudo está sendo dito e entendido. No entanto, neste processo, facilmente há dissonâncias. Ouvir da maneira correta é primordial para que as pessoas se sintam importantes. Cultivar pequenos gestos que demonstrem empatia une as pessoas e torna o ambiente leve.

Criei com minha equipe uma rotina de reuniões, promovendo oportunidades em que as pessoas parem o que estão fazendo e conversem, sem se distraírem pela tecnologia ou pelo operacional. Elas contribuem umas com as outras, enxergam a empresa como um todo, indo além do seu trabalho e setor, dividem dúvidas e responsabilidades e podem ser ouvidas. Isso aproxima a equipe e fortalece o ambiente de trabalho. Dou autonomia para os gestores e ofereço apoio sempre que precisam. Mulheres são naturalmente experts em ler pessoas. Pude oferecer um olhar mais humanista e integral a respeito do ser humano. Em meio a tantos indicadores e processos seletivos padronizados, não podemos nos esquecer de enxergar os colaboradores como pessoas integrais e que tem aspectos de comportamento e características de vida que vão além da empresa. Avaliar aptidões, potenciais e comportamentos de forma qualitativa, é algo trabalhoso, porém necessário.

 

ANFACER: É comum perceber, em diversas entrevistas, que as mulheres têm a chamada tripla jornada: trabalho + rotinas de casa, filhos etc. Pela sua experiência, o que é preciso ficar atenta para que se mantenha a qualidade de vida e não seja tragada por uma rotina devastadora física e psicologicamente? Qual o ponto de equilíbrio? 

AEB: Tenha um pouco de tudo todos os dias – e quando estiver fazendo algo, esteja realmente ali. Faça uma coisa de cada vez: quando estiver no trabalho, ou com seus filhos, esteja 100% ali. Faça pausas, ouça os sinais do seu corpo e respeite seu próprio ritmo: quando estiver cansada, permita-se parar e continuar no outro dia. Se você estiver preocupado com sua casa ou trabalhando cansada, sem horas de sono suficientes, duas coisas podem acontecer: ou você descansa e depois trabalha melhor, ou o seu corpo vai te obrigar a parar, adoecendo. Se conhecer e respeitar seus limites (físicos, mentais e emocionais) é uma das chaves de ouro que te preparam para estar sempre pronta a atender às necessidades de sua equipe e empresa. Quando possível não leve trabalho para casa. Aproveite a mudança de ambiente entre casa e empresa como uma chave para desligar sua mente. Lembre-se que você não precisa se preocupar o tempo todo: se não conseguiu resolver algo hoje, tenha em mente que aquilo vai estar lá no dia seguinte e descansada ficará mais focada para encontrar uma solução. Tenha um hobby e hábitos saudáveis – tantos quanto puder. Não se deixe de lado nem se exija demais: tenha momentos só para você, continue cuidando de sua aparência e feminilidade. Mas nos dias em que estiver exausta, respeite seus limites: faça só um rabo de cavalo e vá em frente, de cara lavada mesmo.


ANFACER: Quais as três palavras-chaves que definem a mulher na Indústria Cerâmica?
AEB: Resiliência, Determinação e Sucesso.

 

ANFACER: Quais os conselhos que você daria às mulheres quem desejam ou estão prestes a tomar frente de uma empresa ou cargo de decisão, seja familiar ou não?
AEB: Foque nas pessoas! Atualmente, o maquinário mais moderno, o projeto mais ousado, as melhores matérias-primas podem ser adquiridos pela sua empresa tanto quanto por qualquer concorrente. Todos os negócios estão inseridos no mesmo contexto econômico e têm os mesmos desafios de mercados. Assim, a gestão de pessoas se torna, além de essencial, um diferencial para o sucesso e sobrevivência da sua empresa. Em vez de descobrir como lucrar, encontre um método de trabalho em que todos saiam ganhando: a empresa, os colaboradores, os fornecedores e os clientes. Isso faz com que eles se sintam realmente parte do negócio e todos trabalharão como donos. Além disso, todo trabalho é importante. E lembre-se sempre: independente da hierarquia e cargo, todos na sua empresa, sem exceção, contribuem para resultado. Reconheça e valorize isso!

Além disso, trabalhe constantemente para se desenvolver como líder. Não tenha medo de se tornar desnecessário. Em um cargo de gestão, nenhuma pessoa pode dar conta da empresa inteira sozinha. Centralizar tudo em si significa nadar rumo ao fracasso e compromete a longevidade da companhia. Tenha as pessoas certas nas funções certas, atribua responsabilidades claramente, dê autonomia e apoie o processo de avaliação e decisão. Seja acessível à sua equipe sempre que ela precisar para apoiá-la ou solucionar um problema. E isso inclui “arregaçar as mangas” e fazer o trabalho quando isso for necessário. Esteja sempre disponível e converse habitualmente com as pessoas, avaliando quais ações estão funcionando e quais não. Importante: analise sempre as ações e não as pessoas em si. Cuide do ambiente de trabalho para que haja um bom clima e as pessoas se sintam seguras para praticar uma comunicação eficaz. Sua equipe deve se sentir à vontade para expor ideias e até erros, se sentindo assim valorizadas e confiantes. Diante de erros, foque em como resolvê-los e evitá-los, ao invés de tentar achar um culpado. Celebre as conquistas e elogie os bons desempenhos! Pessoas valorizadas se sentem mais motivadas e isso faz parte do sucesso da empresa.

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