Por que a inflação cai mesmo com dólar nas alturas e PIB aquecendo
11/2/20
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A estimativa para a inflação brasileira em 2020 medida pelo IPCA caiu de 3,40% para 3,25% no último Boletim Focus, que reúne as expectativas do mercado. Foi a sexta semana seguida de queda.
Nem dólar nominal recorde e salto nos preços da carne abalaram as previsões para o IPCA de 2020, que caem há seis semanas
São Paulo — Dólar em cotação nominal recorde, atividade econômica em aceleração, juro em mínima histórica e preocupações com a economia global. Em outros tempos, a união desses fatores significaria inflação galopante no Brasil — mas está acontecendo o oposto.
A estimativa para a inflação brasileira em 2020 medida pelo IPCA caiu de 3,40% para 3,25% no último Boletim Focus, que reúne as expectativas do mercado. Foi a sexta semana seguida de queda.
Enquanto isso, o dólar, que influencia custos de produção, importações e o valor de itens importantes para a formação de preço como a gasolina, começou o ano na faixa de R$ 4 e hoje está em R$ 4,32.
Por que a pressão cambial não está batendo nas expectativas de inflação? Há algumas razões.
A primeira delas é que o IPCA de janeiro surpreendeu muito para baixo, e foi o menor para o mês desde o início do Plano Real. O grande responsável por isso foi a carne, que havia disparado 40% no atacado no fim de 2019 com o aumento nas exportações para a China. Em janeiro, ela despencou.
“Ou seja, já começamos o ano com uma deflação contratada nesse item”, diz Júlia Passabom, economista que acompanha o IPCA para o Itaú.
A gasolina também está contribuindo: somente em 2020 a Petrobras já anunciou quatro cortes no preço do combustível às refinarias, acompanhando a queda na cotação internacional.
Passabom explica que a queda dos preços da carne e da gasolina neste momento também acabaram impactando as previsões do mercado para o resto do ano.
“É isso que está por trás de parte dessas revisões do Focus, que acabam sendo muito indexadas ao curto prazo, que é o período para o qual já é possível fazer contas mais detalhadas”, diz.
Repasse menor
Além da queda da gasolina e da carne, os economistas apontam para outro fator: caiu o impacto de altas do dólar sobre o nível de inflação. Esse cálculo, chamado pass-through, varia dependendo do período econômico e teria atingido o pico no Brasil antes do tombo da recessão em 2015.
Quando a economia está menos aquecida, com baixa utilização da capacidade instalada e desemprego maior, o potencial de repasse cambial cai, diz Thais Zara, economista-chefe da Rosenberg Consultores Associados. As empresas sabem que se repassarem os preços, vão perder clientes, então acabam absorvendo uma uma parcela maior desse impacto.
Esse movimento fez com que o pass-through no governo Dilma chegasse a 10%. Isso significa que, se o dólar subisse 10% em um ano, o impacto sobre o IPCA seria de 1 ponto percentual. Hoje, essa conversão seria a metade: se o dólar subir 10% em um ano, o impacto sobre o IPCA seria de 0,5 ponto percentual.
O banco Daycoval calcula esse valor em 4%, enquanto o Itaú trabalha com uma taxa de 6%, contra 7,5% em agosto de 2018.
Outra variável é o efeito do câmbio sobre as expectativas, mais difícil de ser precisado, já que é indireto e depende de quanto os agentes acreditam na meta de inflação.
“A principal razão dessa mudança é ligada ao fato de as expectativas para a inflação estarem ancoradas. A credibilidade na equipe econômica do governo atual faz com que os juros fiquem baixos, o que acaba criando uma situação mais controlada ou contornável do pass-through“, diz André Perfeito, economista-chefe da Necton.
Em janeiro, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, também destacou que “o prêmio de risco fez o repasse mudar”. Essa percepção de risco baixo do Brasil, no entanto, também considera que reformas econômicas importantes continuarão sendo feitas.
Outro fator importante, segundo Perfeito, é que o preço de algumas mercadorias importadas também vem caindo devido à demanda desaquecida lá fora. “O dólar subiu, mas os preços caíram também”, diz.
Um dos principais mecanismos do pass-through é via commodities, que estão em queda no mercado internacional. O CRB, principal índice do setor, já recuou 8,5% em dólar só neste ano.
“Como milho, soja e trigo são cotados em bolsas internacionais, se a nossa moeda fica mais fraca, o preço desses grãos sobe e toda cadeia de derivados acaba sendo afetadas”, diz André Braz, coordenador do IPC do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV).
Recuperação lenta
Outro fator importante para determinar a inflação é a atividade econômica, que gera demanda e pressiona os preços. A previsão do mercado, também pelo Focus, é que o crescimento vá acelerar de 1,1% em 2019 para 2,3% em 2020, mas que a capacidade ociosa e o desemprego seguirão elevados.
“Tendo em vista a magnitude do hiato do produto e o tempo necessário para seu fechamento, não vemos, no momento, risco significativo de inflação de demanda”, diz o Itaú em relatório desta segunda.
Em outras palavras, vai demorar para o Brasil recuperar o que perdeu nos últimos cinco anos. Enquanto isso não acontece, a indústria ainda tem espaço para aumentar oferta.
Vale ressaltar também que o mercado espera que o atual pico do dólar seja temporário, pois reflete o temor com o surto global do coronaví
O projeto, que contempla a instalação de novos maquinários e readequações em toda a operação, também representa um reajuste de rota mediante a necessidade de reestruturação com vistas a atender novos mercados internacionais em decorrência dos impactos sentidos pela tarifação estadunidense
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